O esporte contra o crime

Por Idel Halfen

No ano de 1924 ocorreu pela primeira vez a Travessia a Nado do Rio Tietê, prova que foi realizada até 1944, quando a poluição do rio deixou inviável a realização do evento.

Nas décadas de 80 e 90, as melhores provas de triathlon do Rio de Janeiro e do Brasil eram realizadas em Copacabana, o que além de atrair praticantes e patrocinadores, contribuiu para que a modalidade tivesse um significativo crescimento, porém, o aumento do número de automóveis e a intolerância da população fizeram com que as provas no local minguassem. Nos últimos meses, um clube de remo situado na Lagoa Rodrigo de Freitas, cartão-postal do Rio de Janeiro, alterou o horário dos treinos para minimizar os riscos de assalto na locomoção de seus atletas.

O leitor deve estar pensando sobre aonde eu quero chegar com os relatos acima. Respondendo de forma sucinta: na negligência do estado, ressaltando que não vai aqui nenhuma crítica de caráter político.

A poluição, a falta de uma política eficaz de transporte que culmina com o crescimento desordenado da frota de automóveis, a segurança precária que também traz reflexos no trânsito já que o uso de bicicletas fica inviável e, principalmente, a pouca atenção dedicada à educação – ferramenta vital para a conscientização das pessoas, o que inclui os próprios políticos – são os fatores responsáveis pelas situações citadas no início do artigo e de inúmeras outras, que por falta de espaço não serão mencionadas.

Sempre defendi o uso do esporte como um agente de formação do cidadão, que auxiliado por uma política educacional séria poderia ajudar bastante no desenvolvimento do país. No entanto, infelizmente, nunca vi uma política de esporte adequada às necessidades do Brasil e, em se tratando de educação, as iniciativas se deram de forma bem esporádicas graças principalmente a figuras como Leonel Brizola, Darcy Ribeiro e Cristovam Buarque.

Quando me refiro ao papel do estado, não faço apologia de investimentos no esporte de alto rendimento, aliás, muito pelo contrário, esse deveria ser apoiado pela iniciativa privada, a qual, certamente, teria muito mais segurança para investir num cenário que contemplasse uma política esportiva voltada para a iniciação e com forte ênfase na proliferação e solidificação dos princípios envolvidos no esporte. O papel do Estado, no meu modo de ver, é disponibilizar e manter condições para que o esporte seja aprendido e praticado por crianças e também adultos, o que inclui uma expressiva quantidade de profissionais bem preparados e de locais adequados e seguros. 

O que temos hoje, é um país cuja maior parte da população acompanha o esporte somente na época das grandes competições, só se satisfazendo com vitórias, caso a medalha de ouro ou o título não venha, as piadas, deboches e ataques proliferam como facadas na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas. 

Reações que nada mais são do que reflexos da falta de educação cultural, social e esportiva. Ao fim dos eventos, tudo é esquecido, o esporte de iniciação é relegado a meras ações eleitoreiras e as demais iniciativas que poderiam ajudar no desenvolvimento do esporte e, consequentemente, da nação, adormecem até a proximidade de um novo “campeonato” de expressiva relevância.

As consequências dessa pouca valorização do esporte, evidentemente aparecerão, sejam elas através de resultados esportivos, o que é óbvio, sejam na forma de crimes contra cidadãos, contra o meio ambiente etc. E assim voltamos ao início do texto, num círculo vicioso… e cada vez mais revoltante.

Idel Halfen é especialista em marketing esportivo e autor do livro “O desafio de ser diferente: Uma visão ampla do marketing esportivo”

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