Força de vontade x disciplina: A receita para atingir seus objetivos!

Às vésperas do Ironman 70.3 Rio de Janeiro uma pergunta tem sido feita quase todos os dias entre os triatletas que estarão na prova e também pelos treinadores. Será que todos os atletas que vão alinhar no Recreio dos Bandeirantes estão preparados para a prova? Ou será que alguns se inscreveram movidos pelo entusiasmo dos amigos e em pouco tempo buscaram um treinamento para fazer a prova?

Basta ter força de vontade para encarar os treinos para uma prova como essa ou é preciso disciplina para cumprir uma jornada bem planejada de treinamentos?  Erica Bamberg é uma das melhores triatletas amadoras do Rio de Janeiro na atualidade. Atleta da Raul Furtado Team, ela atua profissionalmente como coach, realizando treinamento de pessoal em grandes empresas. Erica explica que antes de responder a estas perguntas é preciso entender o que significa força de vontade e disciplina.

“Ambos têm significados diferentes, porém são bastante complementares. Força de vontade são os poderes interiores e fundamentais para a nossa vida. É a força interior para tomar uma decisão, agir ou até mesmo executar quaisquer atividades. Ajuda a superar a preguiça, as tentações ou os hábitos ruins. Já a disciplina está relacionada à capacidade de como fazer e manter as ações, opiniões e comportamentos que levam à melhoria contínua e rotineira na busca do objetivo planejado. Ela está entre os pilares de sucesso. Costumo dizer que a força de vontade te faz começar a agir, o querer fazer. A disciplina te mantém no percurso, na continuidade das atividades planejadas”, explica Erica.

Mas no caso de um atleta amador, o esporte certamente não é sua atividade mais importante, embora possa estar entre suas prioridades. E com uma vida profissional e familiar a todo vapor nem sempre é possível manter a disciplina nos treinos. Erica explica que é fundamental que o atleta amador tenha um objetivo traçado e força de vontade para iniciar a sua jornada. A partir daí a disciplina é aplicada nas tarefas periódicas que precisam ser executadas.

“Na Raul Furtado Team usa-se uma técnica para estabelecer um planejamento de atividades que se encaixe na rotina diária, e que possa ser cumprido. No inicio, para alguns atletas a prática do feedback do planejado e realizado pode gerar um aprendizado no autoconhecimento mental, corporal e espiritual”, diz Erica, lembrando que esse conhecimento faz o atleta entender suas limitações, barreiras, e fraquezas, além de reconhecer os seus pontos fortes.  “E tudo isso faz parte de uma rotina que irá provocar motivação interna”, acrescenta.

Mas e no treinamento de triathlon de longa distância, será que a força de vontade, que pode vir com muita intensidade de vez em quando, pode substituir a disciplina? Será que a força de vontade pode fazer o atleta recuperar algum tempo perdido por falta de disciplina?

“As duas andam em conjunto, com importâncias distintas dentro desse processo. A força de vontade é um processo contínuo, mas que pode se perder por uma situação difícil. Porém, é importante resgatá-la para alcançar o objetivo traçado. Já a disciplina encaminha boa parte do planejamento. No caso de um esporte como o triathlon, a leitura do atleta feita pelo treinador, através de conversas e feedbacks, pode determinar se ali há ou não um amador disciplinado. Este, ao adotar uma rotina sistemática de treinos, com certeza chegará mais rapidamente aos seus objetivos”, completa Erica.

Treinador e triatleta profissional, Raul Furtado garante que de cara, através de uma conversa rápida, consegue perceber se o candidato a atleta tem ou não força de vontade e se pode ser um aluno disciplinado.

De cara percebo se o atleta tem força de vontade ou não, disciplina conseguimos implementar na rotina dele gradualmente, caso ele não tenha ou talvez não saiba como encaixar o esporte na rotina diária. Isso faz parte da responsabilidade de um bom coach.Tive a oportunidade de trabalhar com os melhores técnicos de triathlon do mundo, e pude absorver e aprender muito com eles, desde uma simples logística de um treino até um complicado mesociclo de Ironman. Aplico tudo isso no treinamento físico e mental dos nossos atletas”, explica Raul, lembrando que a força de vontade é o primeiro passo, mas que sem  a disciplina aplicada e direcionada, a planilha não surtirá muito efeito.

Em agosto Cláudia Scaldini ganhou a prova de triathlon na Etapa Mangaratiba no XTerra. Para a triatleta, provas longas exigem preparo físico e mental, que só são adquiridos com o treinamento.

“Acho muito difícil um atleta ter sucesso em provas longas sem a disciplina de cumprir a rotina de treinos, de alimentação e de recuperação. Traçando um plano e cumprindo as etapas é possível chegar a qualquer objetivo. Mesmo com imprevistos pelo caminho é importante fazer sempre o melhor”, conta Cláudia, que confessa ter levado para outras áreas de sua vida a disciplina desenvolvida no triathlon.

A atleta lembra que logo ao começar a praticar triathlon fez uma prova de XTerra em que tudo deu errado. Mas no lugar do desânimo, sentiu uma enorme necessidade de treinar para melhorar passo a passo.

“Fiz tudo errado e sofri muito na prova. Mas terminei querendo muito que aquela fosse a primeira de muitas provas e com a certeza de que eu queria muito melhorar.Comecei a me dedicar e vi claramente que os resultados eram proporcionais ao meu esforço. É assim em tudo na vida. Ninguém te coloca na linha de chegada. Assim como ninguém te faz um bom profissional, um bom filho, uma boa esposa ou um bom marido, um bom amigo ou seja lá o que for! Claro que encontramos grandes professores pelo caminho, mas a missão de evoluir a cada dia e se tornar melhor é individual. Consegui melhorar em todas as áreas da vida aplicando os valores, entre eles a disciplina, que aprendi no esporte”, completa Cláudia.

João Resende será um dos cerca de mil competidores alinhados para a largada no domingo para o Ironman 70.3 Rio, no Recreio dos Bandeirantes. Durante dois meses o triatleta seguiu um planejamento do treinador Raul Furtado específico para esta prova. E a disciplina foi a base da preparação. Resende acredita que em provas de endurance o aspecto mental é responsável por 70% do resultado e o físico por 30%.

“É importante a força de vontade para iniciar, mas só a mudança de hábitos faz você continuar. A disciplina tem que fazer parte da rotina, principalmente no caso de atletas amadores. As semanas são intensas com dois treinos diários, que devem se conciliar com a vida profissional e social”, diz o atleta.

A vida social é um caso à parte. Quanto mais se aproxima a prova, mais ela fica comprometida, segundo Resende. Mas não é fácil abrir mão de programas com os amigos ou com a família. Para alguns – na verdade para a maioria – chega a ser um sofrimento. Aí…

“Treinar por horas seguidas, chova ou faça sol, durante a semana, sábado e domingo e até nos feriados e ainda abdicar de uma vida social é um grande sofrimento. Mas por mais engraçado que pareça, a graça está justamente no sofrimento. É tudo uma questão de sentir-se confortável no desconfortável”, confessa o triatleta.

Desenvolver a disciplina não é uma tarefa fácil. É algo muito pessoal. João Resende conta que não precisou desenvolvê-la, que sempre foi uma pessoa disciplinada, mas que no triathlon isso ficou um pouco mais evidente.

“Sempre fui muito disciplinado em tudo o que fiz. Mas quando comecei a praticar triathlon, a disciplina e o foco ficaram muito mais evidentes. Percebi rapidamente que só assim eu conseguiria evoluir. Mas mesmo assim a disciplina é um exercício diário. No esporte e na vida de uma forma geral. Em esportes como o triathlon ela fica muito evidente, por contar de termos que conciliar vida profissional e pessoal com os treinos de três modalidades. Tudo na vida é questão de planejamento e de disciplina para executá-lo. Sem ela não passará de um planejamento. Levo isso a sério na minha vida. Se é para fazer vou fazer da melhor maneira possível”, completa o triatleta.

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