ESPORTE: autoconhecimento ou “autodistanciamento”?

O esporte, como outras instituições sociais, é um recorte representativo de nossa sociedade. Afinal, os atores são os mesmos: nós, seres humanos que vivemos inseridos na sociedade. Assim sendo, as relações que se estabelecem com o mundo têm seus recortes específicos. No esporte não seria diferente.

O esporte é, provavelmente, a representação mais concreta de potência, poder e status na vida do ser humano. Ganhar e perder dependem da performance concreta do corpo em um determinado tempo e espaço. Não se esquecendo dos árduos treinos, que também são pautados na concretude da performance física.

Desde o surgimento do esporte profissional, na Grécia antiga, busca-se a conquista pela melhor colocação, a fim de obter maiores benefícios trazidos por um bom resultado, no caso, patrocínios. Mas o esporte não se resume apenas ao profissional. Ao contrário, a maioria dos praticantes é de tempo livre. Isso significa que o tempo dedicado ao esporte seria em busca de lazer, qualidade de vida e saúde. Entretanto, como em nossa atual sociedade, também no esporte conseguimos observar uma inversão de valores. Há um desgaste daquilo que chamamos de tradição, das experiências transmitidas a nós que davam consistência ao ser.

Hoje, devemos construir nossos próprios caminhos. Ninguém se responsabiliza por ninguém, nem por si mesmo. Vemos o constante descuido com a própria existência, e torna-se comum colocar-se em risco, seja por atos radicais ou pequenas ações cotidianas de extremismo como não dormir, tomar remédios sem prescrição, usar álcool, drogas e, no esporte, doping. No desamparo do cenário atual, nos desorientamos. Vivemos um grande esquecimento de nós mesmos.

Para não nos afogarmos, nos apegamos a alguma coisa, usamos uma boia para não cair na angústia existencial. Por medo do desconhecido (pois a angústia existencial é fundante do ser e é por meio dela que nos é aberta a possibilidade de encontro de si mesmos) caímos no cotidiano.

Pegamo-nos na concretude da aparência, buscamos segurança no ter, dispensamos a reflexão e nos entregamos radicalmente a algo. Esse fenômeno pode ser observado no esporte, em que o ter equipamentos de última geração, fazer parte de uma equipe “X”, usar roupas “Y” e ganhar a qualquer custo, muitas vezes fazendo uso de técnicas ilegais, como o vácuo no ciclismo do triathlon ou o uso de substâncias proibidas, passam a ser mais importantes do que os princípios fundamentais do esporte.

O esporte pode ser meio de autoconhecimento, da busca do humano pelo próprio humano. Entretanto, também pode ser vivido como um meio para afastamento de si mesmo, concentrando-se em fazer corpos por meio do autodisciplinamento. O corpo passa assim a ser um palco performático.

O distanciamento e a entrega ao “ter” e ao “parecer ser aquilo que não se é” passam a ser mais importantes do que o conhecimento de si mesmo, de seus valores e de seu caráter.

As demonstrações, muitas vezes exacerbadas, de resultados vazios, passam a ser mais importantes do que o percurso e a performance.

Faz-se mister esclarecer a diferença entre resultado e performance. O resultado é a colocação, o primeiro, o segundo, o terceiro… É o ganhar de alguém. A performance é a autossuperação, é melhorar um tempo, melhorar a técnica, melhorar a concentração durante a prova, fazer mais amigos, ser mais feliz com a prática, enfim, cada um com seu objetivo.

Penso ser essa uma diferença fundamental quando falamos sobre esse esvaziamento existencial em que o esporte amador atual vive. Em nossa sociedade excitada, necessitada de viver os limites para um auto-anestesiamento e transformadora do humano em máquina, o esporte pode ser um simples recorte e repetição disso tudo, ou um meio em que se pode redescobrir o humano, a brincadeira, a emoção de se estar vivo, de sentir alegrias e tristezas, de se valorizar o outro e se haver com as próprias capacidades.

O esporte pode ser um entremeio, uma rachadura para o encontro das próprias fragilidades e para a aproximação de relações verdadeiras, não pautadas em quem tem o melhor resultado, a bicicleta mais cara, o maiô ou a roupa da moda.

E agora, deixo minha pergunta: como você tem feito uso da sua prática de esporte?

Daniela de Oliveira é psicóloga esportiva e ex-nadadora profissional

www.pdhpsicologia.com.br

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