Casais endurance: Quando o triathlon une objetivos em comum!

“Por você, eu dançaria tango no teto, eu limparia os trilhos do metrô, eu iria a pé do Rio a Salvador.” O grupo Barão Vermelho eternizou esta frase em nossas mentes através da música “Por você”, entretanto, para alguns casais que conhecemos, a canção não está completa. Depois de ir “a pé do Rio a Salvador”, faltaria nadar pelo mar mexido de Fortaleza, pedalar por Florianópolis inteira e correr uma maratona no Havaí… esta foram apenas algumas sugestões dadas por eles do que dá para ser feito quando um casal formado por triatletas está em perfeita sintonia.

O triathlon durante muitos anos foi um esporte dominado por homens, mas já faz algum tempo que o número de mulheres inscritas nas provas só vem crescendo, e desde que isto aconteceu o número de casais de triatletas também aumentou. Uma das grandes dificuldades de um triatleta, seja homem ou mulher, é quando não recebe o apoio da pessoa que se relaciona. Dos casais que conhecemos, todos são confiantes em dizer que, pelo outro praticar o esporte também, a compreensão é facilitada. É claro que este convívio demasiado também pode prejudicar, será? 

Segundo a psicóloga esportiva Daniela de Oliveira, existem pesquisas que mostram que casais que fazem atividade física juntos têm uma melhora efetiva na comunicação e relatam uma convivência mais harmônica. Confira a opinião dela: “Acredito que praticar atividade física junto com o parceiro/parceira fortalece o relacionamento, pois aumenta o tempo de convivência qualitativa, têm mais assuntos em comum e o esporte, por características próprias ao meio, facilita uma comunicação assertiva entre as pessoas, colaborando na resolução de problemas cotidianos”, e Daniela complementa; “Se mais ajuda ou atrapalha? Acredito que possa ser uma faca de dois gumes. Todas as evidências apontam para efeitos benéficos para o relacionamento. Entretanto, estamos falando sobre seres humanos, tudo depende de COMO cada casal vai vivenciar isso. Como lidar com treinos e competições do mesmo esporte sem afetar negativamente o relacionamento? Cada casal deve achar sua própria maneira de lidar com o esporte, mas o fator mais importante é ser esportivo, quero dizer com isso que o casal deve se divertir junto, o esporte pode ser usado como tempo qualitativo de troca de experiências significativas dos dois, e uma desculpa perfeita para estar de bom humor um com o outro, aproveitando a liberação de endorfina, adrenalina e serotonina do exercício.”

Sinergia veterana

Regiane e Celio Garcia (foto acima) formam mais do que um casal, formam a “Família Garcia”, que junto com a triatleta profissional Fernanda Garcia ajudam a divulgar o esporte através de um exemplo onde o companheirismo e comprometimento estão sempre à frente do que qualquer resultado. Ela tem 54 anos e ele 58, e já estão próximos de completar 25 anos no triathlon. É mais do que um bom exemplo de casal bem sucedido que tem o esporte como pano de fundo.

Começaram a namorar em 1976, o casamento aconteceu em 1979. Celio foi surfista e praticou voo livre por 12 anos, até que os filhos foram chegando e, em 1991, com a morte de Pepê – campeão mundial de voo livre – durante um campeonato, ele deu uma esfriada. Foi quando em meados de 1992 conheceu o triathlon em Santos – cidade onde vivem – e não parou mais. No ano seguinte, Regiane embarcou na aventura, a corrente foi aumentando e os espaço para as bicicletas diminuindo, com os filhos ingressando no esporte também, chegando ao ponto de, em várias provas, terem os cinco membros da família largando no mesmo evento.

“Essa nossa parceria facilita muito para alcançar nossos objetivos, pois para uma situação que envolve a horas de dedicação e comprometimento nos treinos, podemos planejar juntos, como estas atividades serão divididas. Naqueles momentos de cansaço, quando um está um pouco desanimado, o outro incentiva e já começa a preparar os equipamentos, alimentos, isso já dá um animo no parceiro. Em 2015 completei meu sexto Ironman e a Regiane seu oitavo, com a conquista da vaga para o Havaí em sua categoria. Quando ela largou na manhã de 10 de outubro em Kona, levou um pouco de cada um dos seus familiares na prova”, diz Celio.

Aliança para a saúde

Eles se conheceram em 2001, quando Juliano Salvadori, que já era triatleta, foi residir em Balneário Camboriú (SC) para estudar; Alessandra Carvalho estava nesta época começando a nadar com a Professora Marta Amorelli (mãe de Igor Amorelli), e foi motivada a participar de provas de travessia de natação, criando amizade com o pessoal do triathlon e passando a fazer parte da Equipe Trial, onde Juliano foi convidado a ingressar em 2003, ano que se conheceram.

Ele era da equipe adulta e ela da equipe júnior, e em 2004 passaram a treinar juntos, onde surgiu a amizade. Em 2005 Alessandra estava planejando começar a competir na categoria profissional, e foi quando o treinador solicitou que Juliano a ajudasse nos treinos de ciclismo. Dessa maior proximidade a amizade se fortaleceu, da amizade e interesses em comum surgiu o namoro, e em 2015, 10 anos depois, se casaram.

Alessandra hoje é treinadora e concilia o trabalho com a carreira de triatleta e a paixão pelas provas de Ironman. Juliano está num processo de volta ao esporte, pois no início do ano passado foi diagnosticado com uma grave doença autoimune (onde o sistema imunológico ataca e destrói células e tecidos saudáveis do organismo). Infelizmente esta doença não tem cura, e a propagação das células inflamatórias é muito rápida. Juliano chegou a um tratamento químico injetável semanal, que minimiza ao máximo esta propagação e gera um equilíbrio químico do sistema imunológico. “Assim, há um ano vivo uma nova rotina, nova vida, para o resto da vida! Hoje, casados, o nosso dia a dia é formado pela vivência no Riders Bike Café, loja de Juliano, e o trabalho de Alessandra como treinadora e atleta da Companhia da Corrida. Bom, os treinos continuam fazendo parte da nossa vida diariamente, agora cada um no seu ritmo e na sua disponibilidade. A Alessandra cada vez mais apaixonada pelas provas de Ironman. Eu, bem, a cada tiro de largada que escuto o sangue esquenta, o coração acelera e os pelos arrepiam, mesmo estando do lado de fora da faixa de largada o frio na barriga continua… e em breve espero estar de volta competindo como nos velhos tempos. Nosso lema: Não desanimes jamais, embora venham ventos contrários – Madre Paulina”, conta Juliano.

Alessandra Carvalho e Juliano Salvadori. Foto: Guto Gonçalves

Alessandra Carvalho e Juliano Salvadori. Foto: Guto Gonçalves

Conexão Campinas-Kona

Ironman Brasil 2013, voo Campinas-Florianópolis, Talita Saab (32) e Marcio Pinhati (44) indo competir pela segunda vez o Ironman e, por acaso, sentam perto no avião. Já se conheciam mas nunca haviam se falado e bastou esta primeira conversa para verem que as afinidades eram maiores do que pensavam. Depois da prova começaram a namorar e, segundo eles, treinando para competições que criaram laços. O gosto pelo esporte facilitava e aproximava suas vidas e a sintonia nos treinos se tornou a maior aliança.

Neste ano de 2013 Marcio se qualificou para competir no Mundial no Havaí e, na volta, visualizaram batalhar para que um dia realizassem o sonho de irem juntos, com ambos classificados, para Kona. E deu certo! Em 2015, na última edição do Ironman Brasil Florianópolis, Talita e Marcio conquistaram a tão sonhada vaga, juntos. “Até maio de 2015 passamos por muita coisa juntos. Sorrimos, choramos, compartilhamos e vigiamos o treino do outro, criticamos quando um fazia corpo mole. Sabemos sim, descansar e fazer outras atividades. Esquecer o esporte, mudar o foco e ter um tempo para só para nós é fundamental. Acredito que nestes dois anos juntos nossa maior conquista e experiência esportiva veio agora, no Ironman Havaí”, revela Talita, que finaliza: “ Nestes dois anos creio ser o companheirismo nossa essência. O fato dos dois fazerem Ironman facilita muito nossas vidas, não seria fácil se apenas um fizesse, pois em vários momentos durante as duras semanas de treinos, nossos finais de semana são preenchidos por horas e horas de treinos, é comer e dormir para o próximo treino no dia seguinte. Adoramos jantar com amigos, cinema ou apenas assistir televisão juntos, mas sem os treinos hoje nossas vidas ficariam um pouco sem sentido. Adoramos cada superação juntos, cada conquista tem um gostinho diferente e na maioria das vezes a conquista do outro é ainda mais gratificante.”

Marcio Pinhati e Talita Saab. Foto: Giuliana de Fiori

Marcio Pinhati e Talita Saab. Foto: Giuliana de Fiori

 

Motopace intensivo

Lahis Francielle tem 23 anos e Luiz Inácio, 33. Ele já era triatleta há mais de 8 anos (na época) quando convidou a menina que era corredora a “adicionar” mais duas modalidades em sua rotina de treinamentos. Namorando há dois anos, o jovem casal já realizou uma grande conquista, estiveram juntos no recente Ironman Havaí, e casaram após a prova, no ritual havaiano. Lahis – que é treinada por Luiz – pegou a vaga ano passado, no Ironman Fortaleza, e Luiz Inácio este ano em Floripa. Para esta conquista Luiz contou com a ajuda de Lahis em vários treinos, onde ela fez motopace no ciclismo e bikepace na corrida, tudo para dar ritmo ao companheiro. Ele conta que se sentiu bem mais motivado pra treinar com a  ajuda dela e que a conquista dela em Fortaleza só o motivou para tentar também em Florianópolis.

“Respiramos triathlon, pois somos da área da Educação Física e tudo que fazemos está ligado ao esporte. Nossa rotina basicamente é treinar. Fazemos a maioria dos treinos juntos, só que cada um em seu ritmo e temos estratégias para não fazer o outro desanimar ou desmotivar. Conhecer a sua “dupla” é primordial, afinal estamos a caminho de um único objetivo, qualquer deslize, pode desviar nosso foco. Levamos o esporte de maneira séria, treinamos para obter resultados, por isso somos um pouco diferente dos casais normais. Dormimos todos os dias antes das 22 horas, os fins de semanas são regados de treinos o dia todo e, se sobrar um tempo, às vezes nos damos a liberdade de tomar uma cervejinha para o relax… Acho que assim evitamos aquelas famosas crises conjugais ouvindo frases do tipo: ‘Ah, não! Será que não dá pra deixar de treinar um final de semana só?’ Brincadeiras à parte, também temos nossos momentos de discussão, porém ao final de todo treino longo, sempre fazemos as pazes!”, conta Lahis.

Lahis Francielle e Luiz Inacio casaram após o Ironman Havaí deste ano

Lahis Francielle e Luiz Inacio casaram após o Ironman Havaí deste ano

Ajuda do sogro

Sylvia Kreuger e Charles Costa, ambos com 31 anos, se conheceram através do pai dela, quando ele teve que iniciar um tratamento de fisioterapia por conta de uma fratura no fêmur. Quando ele começou o tratamento, sempre comentava sobre o fisioterapeuta, que considerava muito bom e que tinha muito em comum com ela, que  também fazia triathlon e  havia vencido a categoria no Ironman Brasil (ele em 2012 e Sylvia em 2011). Charles havia recentemente mudado para Balneário Camboriú, Santa Catarina, para inaugurar e trabalhar no Centro de excelência da CPH, clínica especializada em recuperação e desenvolvimento de atletas que conta com um corpo técnico multidisciplinar.  Ainda passou um bom tempo até eles se conhecerem, e foi por acaso, numa corrida que Sylvia venceu, onde seu atual treinador, Rafael “Palito”, estava com Charles assistindo e a convidaram para conhecer o novo Centro.

Começaram então a se conhecer melhor e a marcar treinos juntos. “Vimos que tínhamos muitas coisas em comum não só em relação ao triathlon.  Somos capazes de abdicar de muitas coisas pelo amor ao esporte e ao nosso estilo de vida, assim traçamos novos planos e sonhos. O primeiro deles foi nos inscrever para o Ironman com o objetivo de conseguir a vaga e irmos juntos para Kona”, revela Sylvia, que conseguiu o objetivo proposto e, no recente Iroman Havaí, competiram juntos, para depois casarem também no ritual havaiano, assim como fizeram Lahis e Luiz.

Hoje eles tentam conciliar seus treinos, cada um no seu ritmo. Eles consideram que têm um desempenho proporcional nas três modalidades do triathlon e o ponto fraco, segundo eles, é o mesmo,  a natação.  “Nos conhecemos bem pra saber o tempo que cada um vai levar e conseguimos sempre dar um jeitinho de fazer os treinos estando por perto, principalmente no ciclismo que é mais perigoso. Triathlon de alto rendimento não é só nadar, pedalar e correr.  Tarefas como cuidar da alimentação, suplementação, logística dos treinos, das viagens, dos equipamentos, dos compromissos extra treinos também fazem parte. Para isso tentamos nos ajudar da melhor forma.  O Triathlon foi um ponto forte, mas com certeza não é apenas por ele que estamos juntos há quase 2 anos. Somos muito parecidos em outras coisas e podemos ficar horas juntos conversando sobre qualquer assunto. Claro que é muito bom ter alguém para falar dos treinos quando se sabe que o outro gosta e quando estamos cansados um entende o outro, compartilhamos tarefas (ele cuida das nossas bikes enquanto eu preparo o que vamos comer!), trocamos experiências, entretanto, também discutimos muito por causa disso, aliás nossas maiores discussões são em torno do triathlon, pois ele tem suas teorias e eu as minhas!”, conta ela.

Charles Costa e Sylvia Kreuger casaram em Kona, após competirem no Ironman. Foto: Rômulo Cruz

Charles Costa e Sylvia Kreuger casaram em Kona, após competirem no Ironman. Foto: Rômulo Cruz

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