Animal na Selva: esteja atento às dicas de segurança no ciclismo!

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Na mesma semana em que havia me programado para escrever sobre a pauta “Segurança”, faleceu em Curitiba, vítima de acidente rodoviário, o jovem ciclista Eduardo Euzébio. Mais do que uma infeliz coincidência, trata-se da prova cabal de que pedalar em ambientes urbanos – seja na rua, na calçada ou em acostamentos – é uma atividade de risco.

E embora esse risco seja de certa maneira análogo ao risco corrido pelo animal mais fraco que habita o mesmo pedaço de selva que outros mais fortes e mais numerosos – cedo ou tarde ele pode acabar vitimado – por outro lado a nossa condição de criaturas um pouco menos selvagens que os próprios animais selvagens deveria ter algum impacto favorável ao longo do tempo. Em outras palavras, se nos submetermos simplesmente ao caos natural – motoristas misturados a ciclistas sem qualquer tipo de regra – continuaremos colecionando cada vez mais cicatrizes físicas e emocionais.

Olhando para um problema complexo com olhar simplificado, enxergo três elementos vitais nessa equação: o poder público, os motoristas e os ciclistas. Do poder público emana, em última instância, a condição de materialização de soluções abrangentes. Isso não quer dizer que “o governo tem que fazer alguma coisa”, mas sim que o governo, se ele mesmo não fizer nada, deve estar sensível e disposto a colaborar com organizações que desenvolvam e executem projetos de inclusão do ciclismo no contexto urbano.
Já no caso de motoristas e ciclistas, não há como responsabilizar um e isentar o outro. O que aproxima ou afasta os dois grupos é essencialmente uma condição de atitude, já que sensatez ou estupidez são encontradas com a mesma proporção atrás do volante ou em cima de uma bicicleta. O que muda é que um motorista estúpido tem um poder de destruição maior que um ciclista estúpido (embora ciclistas sem juízo possam causar acidentes de grandes proporções em uma estrada movimentada).

Uma vez aceita a premissa colocada anteriormente – a de que somos um pouco menos suscetíveis a impulsos selvagens que o Rei Leão e seus súditos, a esperança na conciliação desses dois grupos repousa em parte no poder legislativo (ou público, novamente). Através de um conjunto de leis específicas para governar as atitudes de ciclistas e motoristas, o ambiente da selva urbana fica um pouco menos selvagem, e nessa medida tanto quem pedala como quem dirige é obrigado a Pensar antes de Agir, sob pena de enfrentar A Lei. E dada a massa crítica de ciclistas urbanos e desportistas, esse conjunto de leis “já demorou”.

Enquanto não temos leis específicas nem infraestrutura adequada, o melhor que podemos fazer enquanto ciclistas desportivos, triatletas e usuários “civis” de bicicletas, é por a mão na consciência e fazer a nossa parte. Com base em vivências próprias e alheias, a parte que entendo como sendo minha é passar adiante a seguinte mensagem, especificamente para aqueles que pedalam nas estradas:

1) Acostamento não é lugar de treinamento. Nós “tomamos emprestado” esse espaço na falta de outro mais adequado, porém isso não muda o fato de que ele foi concebido como área de escape para veículos maiores, mais velozes e mais pesados que nossas bicicletas. Nesse habitat, nós somos caça e não predadores, e qualquer impulso que nos leve a acreditar em contrário (eu vou passar, ele que espere…) é meio caminho andado para problemas grandes;

2) As entradas e saídas (acessos para vias secundárias) próximos à chegada das cidades são, de longe, os pontos mais perigosos da estrada para ciclistas que usam o acostamento. Mesmo olhando para trás corremos o risco de não ver um veículo que se aproxima por trás de um caminhão, por exemplo, e que acaba convergindo bruscamente para o acesso – cortando a frente do caminhão e na sequência atropelando o ciclista;

3) Na mesma proporção em que muitos motoristas não têm ideia da velocidade atingida pelas bicicletas atuais, a maioria dos atletas que pedalam não tem ideia da dificuldade em parar bruscamente um caminhão ou ônibus com dezenas de toneladas. O motorista pode até querer parar, mas entre ele acionar o freio e o veículo efetivamente parar, o tempo decorrido e o espaço percorrido podem ser demasiados para o bem-estar do ciclista. Por esse motivo, aquela manobra de “desviar alguma coisa no acostamento colocando a bike na pista” deve ser feita com muita cautela – mesmo que ao olhar para trás o ciclista veja caminhão ou ônibus “longe”;

4) Usar boné de ciclista ou touca pode ser estiloso, mas a única coisa que salva a vida em caso de batida da cabeça é o bom e velho capacete. Sair sem ele, nem para ir à padaria;

5) Imputar às autoridades e aos motoristas a responsabilidade e/ou culpa por tudo o que pode acontecer aos que pedalam é pequenez.  Somente quando assumirmos nossa parcela – tanto de responsabilidade como de culpa se for o caso – seremos levados a sério o suficiente para ter nossa voz ouvida;

6)Muito do que acontece, ou quase-acontece, na estrada especialmente aos triatletas é fruto da falta de orientação de segurança: como andar em pelotão; como trocar de marcha e beber água e comer sem desequilibrar-se da bicicleta; como conduzir a bicicleta com segurança; como ultrapassar com segurança (essa então…). Creio que as assessorias, que assumiram o papel de dar treinamento físico a esses atletas, deveriam também preocupar-se em dar esse tipo de instrução de segurança. Até que isso aconteça de maneira sistemática – até que a orientação específica assuma o papel de mantenedora da integridade física dos atletas, especialmente os novatos, continuaremos à mercê da sorte e da providência divina;

7) Cabe aos veteranos e aos formadores de opinião um papel fundamental aqui, tanto no exemplo diário como na construção, ao longo do tempo, de um Ethos – um Código de Conduta. Mais do que nas palavras ou nas instruções, os atletas jovens ou iniciantes irão espelhar-se nas atitudes dos mais experientes. Se esses se portarem com sensatez, irão disseminar sensatez. Se saírem sem capacete pegando vácuo de caminhões a 100 por hora, serão cultuados por uma legião de seguidores que seguramente pode acabar contribuindo com muitos membros para a dos anjos.

8) “Eu tenho a situação sob controle”. Acredito que um ciclista tem no máximo a sua bicicleta sob controle. A movimentação dos veículos, a dinâmica do trânsito, a imponderabilidade (pneu estourando por exemplo) são fatores que fogem totalmente ao controle de quem pedala. O que nós precisamos é ter noção verdadeira do risco que estamos correndo – e também do risco a que estamos submetendo os que estão ao nosso redor – quando fazemos determinadas manobras, quando atingimos certas velocidades ou quando optamos por deixar o capacete em casa.

9) “Eu sou habilidoso”, diz quem anda no limite. Ayrton Senna era muito, muito mais.

10) Na falta de poder público, de bom senso dos motoristas, de infraestrutura e de civilidade – tanto por parte dos colegas que pedalam como dos que dirigem – que restem ao menos duas coisas: humildade, para lembrarmos que diante de objetos maiores, mais velozes e mais pesados, “ter razão” significa quase nada; e um sorriso no rosto ou um gesto de cortesia, para agradecer aqueles motoristas que nos concedem, seja lá por qual motivo e ainda que só por um instante, o nosso lugar ao sol.

Maximilian Frederick Leisner
Kona Bikes /max@konatrishop.com.br

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